KK – Outro dia, durante o almoço, sugeriu que um livro que tratasse unicamente das vidas de artistas seria de utilidade.
EH – Eu não quis dizer isso. Pretendi sugerir um que se ocupasse com seus caracteres – fracos ou fortes, emotivos ou frios – escrito por pessoas muito ligadas a eles. O que o homem é assim é o trabalho. Nada sai do nada.
KK – Referiu-se também ao fato de que grande parte de suas pinturas não são réplicas de cenas reais.
EH – Early Sunday Morning (130 – Óleo sobre tela, 88,9 x 152,4 cm New York (NY) Coleção do Whitney Museum of American Art. Adquirido com fundos de Gertrude Vanderbilt Whitney, 31.426.) é quase uma transcrição da Sétima Avenida. Hoje essas casas não estão mais lá. A maior parte de minhas pinturas são composições, porém não são retiradas de qualquer cena. No entanto há uma tela que pintei no Cape intitulada de Cape Cod Afternoon que mostra apenas uma casa e um barracão pintados diretamente da natureza. Existem alguns outros que foram transcrições mas esses são mais antigos.
KK – Faz esboços primeiro?
EH – Faço, normalmente desenhos a lápis ou a crayon que nunca mostro. São uma espécie de diagramas. Faço desenhos preliminares de diferentes seções da pintura e depois combino-os. Minhas aquarelas são todas feitas diretamente da natureza e ao ar livre e não como esboços. Atualmente faço muito poucas; prefiro trabalhar no estúdio. Quando improviso mostro-me mais como sou. A aquarela é mais real. Com o óleo elimino mais. É uma vantagem trabalhar com um meio que pode ser corrigido e alterado, como é o caso do óleo.
KK – Quer dizer que prefere trabalhar lentamente?
EH – Não creio que seja por isso que faço menos aquarelas. Penso que é porque as aquarelas são feitas diretamente da natureza e eu não pinto mais assim. Parece-me que consigo mais eficiência trabalhando no estúdio.
KK – Qual dos seus trabalhos prefere?
EH – Talvez a última pintura que fiz o verão passado – Second Story Sunlight. Mostra os últimos andares de duas casas com uma varanda e duas figuras, uma mulher jovem e uma idosa. Creio que não houve realmente qualquer idéia de simbolismo nas duas figuras. Se houve, pode ter sido idéia de forma vaga, sem preocupar-me com isso. Interessava-me mais a luz nos edifícios e nas figuras do que qualquer simbolismo. Jo (a Sra. Hopper) pousou para ambas as figuras; ela já pousou inúmeras vezes, para muitos trabalhos. Duas outras pinturas de que gosto muito são Cape Cod Morning e Nighthawks. Esta última foi sugerida por um restaurante na Greenwich Avenue onde se encontram duas outras ruas. Nighthawks parece ser a representação do que eu penso de uma rua noturna.
KK – Solitária e vazia?
EH – Não a vi como particularmente solitária. Simplifiquei muito a cena e fiz o restaurante maior. Provavelmente sem me dar conta disso eu estava pintando a solidão duma grande cidade. Gosto também de Early Sunday Morning, se bem que a manhã não foi necessariamente de domingo. O “domingo” foi sugerido por alguém, mais tarde.
KK – E Cape Cod Morning? Por que o mencionou especialmente?
EH – Penso que ele se aproxima mais do que eu sinto do que algumas de minhas pinturas. Parece-me que não é importante saber exatamente por que.
KK – A circunstância de passar os meses de verão em Cape Cod teve alguma influência em seu trabalho?
EH – Na verdade não sei. Trabalhei muito lá – pinturas que serão expostas um dia, suponho. São em tom elevado, de certo modo como o impressionismo ou um impressionismo modificado. Penso que ainda sou impressionista.
KK – Suas primeiras viagens à Europa exerceram influência em seu trabalho?
EH – Na verdade não sei. Trabalhei muito lá – pinturas que serão expostas um dia, suponho. São em tom elevado, de certo modo como o impressionismo ou um impressionismo modificado. Penso que ainda sou impressionista.
KK – Por quê?
EH – Talvez por alguma razão associada com a simplificação. Para mim o impressionismo foi a impressão imediata. Estou no entanto muito interessado, como é óbvio, na terceira dimensão. Alguns dos impressionistas também estavam, como deve saber. A pintura francesa, mesmo quando trivial e ligeira, é tridimensional. Basta considerar Fragonard.
KK – Dos pintores do passado quais admira?
EH – Acima de todos Rembrandt, e também o gravador Meryon. Sua luz é romântica; a essência da luz pode ser vista de forma perfeita na sua gravura chamada Turret in the Weavers Street. Rembrandt é formidável. Também gosto muito de Degas.
KK – Quais as influências mais fortes no seu trabalho?
EH – Sempre me tenho voltado para mim mesmo. Não sei se alguém me influenciou muito.
KK – Seu trabalho é essencialmente americano?
EH – Não sei. Acho que nunca tentei pintar o panorama americano; tento pintar a mim próprio. Não vejo porque deva ter o cenário americano agarrado a mim. Eakins não o tinha. Como a maior parte dos americanos eu sou produto de uma mistura de raças. Talvez todas me influenciaram – a holandesa, a francesa; possivelmente terei alguma coisa de galês. Holandês de Hudson River – Não holandês de Amsterdã.
KK – Sempre que se escreve sobre o seu trabalho se diz que seus temas são a solidão e a nostalgia.
EH – Se o são é de forma inconsciente. Provavelmente eu sou de temperamento solitário. Quanto à nostalgia, tampouco é consciente. As pessoas descobrem qualquer coisa nos trabalhos de alguém, traduzem em palavras e assim a coisa está em movimento para sempre. E por que não nostalgia em arte? Meus temas não são conscientes.
KK – O que significa isso? Para o Second Story Sunlight, por exemplo, não houve um tema?
EH – Esse quadro é uma tentativa de pintar a luz natural com branco, com quase nenhum ou nenhuma pigmento amarelo misturado no branco. Qualquer idéia psicológica terá de ser terá de ser acrescentada pelo espectador. O meu primeiro impulso, porém, não foi pintar a luz. Sou um realista e reajo aos fenômenos naturais. Quando criança observei que a luz da da parte superior duma casa era diferente da parte inferior. Existe uma espécie de elação no que se refere a luz da parte superior das casas. Como sabe, são muito os pensamentos, os impulsos que entram numa pintura – não apenas um. Considero a luz uma força expressiva importante mas não de forma demasiado consciente. Penso que para mim ela é uma expressão natural.
KK – O que o fez passar da figura à paisagem e à arquitetura?
EH – Nas escolas de arte pinta-se a figura porque existe o modelo por onde se deve trabalhar. Depois vem a liberdade de fazer o que se quiser. Talvez eu inclua figuras algumas vezes por sentir que é um dever “fazer” humanidade. Apesar de haver estudado com Robert Henri nunca pertenci à Escola Ash-Can. Tinha uma tendência sociológica que não me interessava.
KK – Seu trabalho contém algum sentido sociológico?
EH – Sei que não sou um colorista. Isso quer dizer que não estou muito interessado em harmonia de cores não obstante as aprecie muito na natureza. Meu interesse está mais voltado para a luz do que para a cor. Por quê? Posso ofender a cor? Não acho que meu trabalho seja sem cor porém meus esquemas de cor são muito simples e quase sempre os mesmos. Não creio que tenha uma fórmula. O que acontece é que utilizo o que acho corresponder ao meu sentido de cor. Estou certo de que não seria capaz de fazer em monocromo o que faço em cor.
KK – Mas afirmou antes que era um realista.
EH – Sou sim. Parece-me que a concepção popular de um realista é de alguém que imita a natureza.
KK – Qual a sua definição?
EH – Não estou seguro. Penso que Rembrandt foi um realista mas encontramos nele muito mais do que uma apresentação de cenas. Como sabe Renoir disse que o elemento essencial de uma pintura não pode ser explicado. Espero não ser um realista que imita a natureza, embora esteja muito interessado nos fenômenos da natureza. Eles estão além do que o homem é capaz de inventar.
KK – Qual a sua opinião sobre textura?
EH – Eu faço experiência com certos tipos de textura. As árvores têm uma textura diferente das casas ou da pele humana. Penso no entanto que pinceladas espessas são uma coisa secundária, como acontece em Rembrandt. Acho que não são necessárias. Entre pintores mais superficiais a aplicação espessa não tem mesmo relação com a procura do efeito final, enquanto que com grandes artistas da envergadura de Rembrandt é algo evidentemente secundário e não um fim de si.
KK – Como escolhe o assunto para uma pintura?
EH – Conversei uma vez com Guy Pène du Bois sobre isso. Ele utilizou o termo “inspiração”. Eu disse, “essa é uma palavra excelente”. Bem, talvez exista inspiração – talvez seja o clímax de um processo de pensamento. É, no entanto, difícil o que quero pintar. Por vezes passam-se meses sem descobri-lo. Depois vem lentamente, toda forma: aí entra em cena a imaginação. Acredito que muitas pinturas são pura invenção – nada vem de dentro. É claro que é preciso usar a imaginação: nada se faz sem ela. Mas há muita diferença entre imaginação e o que o pintor encontra em si mesmo.
KK – Seu trabalho sofreu alterações nos últimos vinte e cinco anos?
EH – Penso que sim. As pinturas são talvez menos literais.
KK – Pinta para satisfazer a si mesmo ou para comunicar-se com outros?
Pinto apenas para mim mesmo. Gostaria que meu trabalho tivesse poder de comunicação, mas se não tem, tudo continua igualmente certo. Quando pinto nunca penso no público, nunca. A resposta completa está aí na tela. Não vejo maneira de acrescentar mais detalhes.
KUH, Katharine. Diálogo com a arte moderna – The artist’s voice. Cia Gráfica LUX. São Paulo, 1965.
Este site é baseado no Projeto de Conclusão de Curso da Aluna Karina Melo de Almeida pela Universidade Salvador - UNIFACS. O projeto original foi concluído no ano de 2001 e pode ser visitado através do link www.hopper.com.br/antigo. Este site não tem fins lucrativos e visa apenas divulgar a Vida e Obra do Artista Edward Hopper.