Diários de Hopper revelam detalhes de sua obra

O lugar de Edward Hopper entre os artistas americanos é problemático, às vezes. Talvez popular demais para o seu próprio bem, ele é visto, por muitos, como uma versão mais sombria de Norman Rockwell. Outros ficam obcecados pela história que está por trás de suas pinturas, até o ponto de a antologia Edward Hopper and the de American Imagination, publicada no ano passado, ter convidado os leitores a inventar tais histórias, cuja violência talvez seja um reflexo da influência de Hopper sobre os cameramen e diretores de Hollywood, mais do que sua obra.

A mais recente questão que gira em torno de Hopper consiste em saber se ele batia na sua mulher, Josephine, ou era ela quem batia nele, durante o relacionamento tempestuoso e simbioticamente abusivo do casal.

O retrato de Josephine Nivison feito por Robert Henri, reproduzido no livro, revela uma mulher que retém ondas de imensa vitalidade por trás dos lábios diabolicamente fechados. Após o casamento deles, Josephine assumiu a tarefa de dirigir a carreira de Hopper, deixando em segundo plano suas próprias inclinações artísticas e sua imensa energia. Foi provavelmente imitando Henri, com quem os dois estudaram, que Jo adotou o formato do livro razão (livro fiscal) usado como diário, no qual ela mantinha controle da produção artística do marido.

Felizmente ela fez isso, porque essa edição fac-símile dos diários nos permite ter um vislumbre revelador da obra de Hopper e da natureza da parceria entre os dois. Na época do segundo diário, 1932, Hopper forneceu uma proporção cada vez maior de desenhos com detalhes de seus quadros, no alto de cada página. Com sua letra angulosa, ele relaciona o material usado.

Sua habilidade como debuxador, evidente nas suas águas-fortes, confere uma nova dimensão a seus quadros muito conhecidos, como Gas, onde o céu do croquis baixa sobre a estação, sem os efeitos da luz noturna que domina o quadro.

Enchendo cada página com sua letra redonda, expansiva, Jo descreve a obra, sua composição, e registra as exposições e as vendas efetuadas. Seu olhar penetrante, as descrições claras e seu cuidado minucioso revelam o orgulho evidente que ela tinha do que, na sua divisão tradicional de trabalho, era a empresa dos dois. Ela também estava profundamente cônscia dos verdadeiros objetivos de Hopper. Nas anotações que fez sobre Sunlight in a Cafeteria, ela escreveu: “Luz do sol e espaço, a história inteira; as figuras são quase negadas pela luz nas paredes”. É na diferença entre a habilidade dele como ilustrador e as preocupações da obra concluída, com a deliberada inclinação da perspectiva, luz e sombra, que reside o verdadeiro gênio de Hopper.

O fato de saber isso não impede que Jo deprecie muitas das personagens, especialmente mulheres, na sua obra. Isso se torna ainda mais divertido porque, até uma fase adiantada de sua vida, Jo não permitiu que Hopper tivesse outros modelos a não ser ela própria. No registro relativo ao quadro Office at Night ela dá à mulher o nome Shirley e ressalta que está usando “muito baton”. Que diabrete!

É maravilhoso descobrir que Route 6, Eastham foi dedicado a Van Wyck Brooks porque o casal Hooper estava lendo New England Indian Summer na época em que o quadro estava sendo terminado, e Pretty Penny é a casa de Hayes em Nyack, a cidade natal de Hopper; o quadro foi adquirido por Charles MacArthur como presente de Natal para sua esposa, Helen Hayes. Folhear aqueles diários é o que temos de mais próximo de uma volta em torno do estúdio de Hopper, tendo Jo como guia entusiástica e Eddie quieto, com o seu trabalho, ao fundo, como ficava muitas vezes.

Tradução de Josepha Szwarctuch

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